Bioquímica

O microbioma intestinal e a saúde mental — o eixo intestino-cérebro

O intestino tem mais neurónios do que a espinal medula. A conversa entre o microbioma intestinal e o cérebro é uma das descobertas mais transformadoras da neurociência actual.

O microbioma intestinal e a saúde mental — o eixo intestino-cérebro

Durante séculos, o cérebro foi tratado como o órgão soberano — o centro de controlo que tudo dirige. A investigação das últimas duas décadas está a reescrever este mapa: o intestino, o seu microbioma, e o nervo vago que os liga ao cérebro formam um sistema de comunicação bidirecional com implicações profundas para a saúde mental.

O segundo cérebro

O sistema nervoso entérico — a rede de neurónios que reveste o tubo digestivo — contém entre 100 e 500 milhões de neurónios. Para comparação, a espinal medula tem cerca de 100 milhões. Este sistema opera de forma semi-autónoma e é capaz de regular a digestão, a motilidade intestinal e a secreção de sucos digestivos sem input do cérebro.

O nervo vago, o mais longo nervo craniano, é a via principal de comunicação entre intestino e cérebro. Curiosamente, a maior parte do tráfego é ascendente — do intestino para o cérebro — e não descendente.

O microbioma como actor neuroactivo

O intestino humano alberga cerca de 38 biliões de bactérias, o mesmo número que células humanas. Este ecossistema — o microbioma intestinal — não é um passageiro passivo. Produz neurotransmissores e seus precursores em quantidades significativas:

  • Cerca de 95% da serotonina do organismo é produzida no intestino, por células enterocromatafins influenciadas pelo microbioma.
  • Bactérias como Lactobacillus e Bifidobacterium produzem GABA, o principal neurotransmissor inibitório do cérebro.
  • O microbioma influencia os níveis de dopamina através da produção de precursores como a tirosina.
  • Ácidos gordos de cadeia curta (SCFA) produzidos pela fermentação de fibra alimentar atravessam a barreira hematoencefálica e modulam a neuroinfilamação.

Microbioma e perturbações mentais

Estudos em ratos germ-free (criados sem qualquer microbioma) mostram ansiedade aumentada, défices cognitivos e alterações nos eixos de stress. Transplantes de microbioma de animais deprimidos para animais saudáveis transferem comportamentos depressivos. Em humanos, a composição do microbioma está correlacionada com ansiedade, depressão, e até perturbações do espectro do autismo — embora a causalidade seja ainda objecto de investigação intensa.

Probióticos específicos — os chamados «psicobióticos» — mostraram em ensaios clínicos reduzir marcadores de stress e melhorar o humor. A dieta mediterrânica, rica em fibra e fermentados, está associada a menor risco de depressão. A hipótese é cada vez mais robusta: cuidar do microbioma é, em parte, cuidar do cérebro.